Reflexão

"Na vida, não há certo; não há errado. Há o possível. O desenvolvimento amplia o possível." (Hélio Guilhardi)

A Importância do brincar na vida das crianças



 Palestra A importâcia do brincar na vida das criança,
a qual fui convidada a participar pela empresa Joanninha
 
"A brincadeira é a atividade espiritual mais pura do homem neste estágio e, ao mesmo tempo, típica da vida humana enquanto um todo... Ela dá alegria, liberdade, contentamento, descanso externo e interno, paz com o mundo... O Brincar em qualquer tempo não é trivial, é altamente sério e de profunda significação." (Froebel, 1912)

O Brincar é um tema abordado por diversos teórico e filósofos além de ser um tema vasto que possibilita imensos questionamentos. Neste artigo pretendo focar:

-benefícios deste ato prazeroso,
-diminuição no tempo da brincadeira com o passar dos anos,
-conseqüências deste declínio para crianças e jovens.

A importância do brincar e seus benefícios

Peço que antes de continuarem a leitura, respondam algumas questões:

Vamos relembrar:
-Quando vocês eram crianças, qual era a brincadeira que mais gostavam?
-Brincavam sozinhos ou com alguém?

Brincar é a atividade mais comum da criança e essencial para o desenvolvimento saudável. Este ato proporciona o desenvolvimento cognitivo, físico, social, e bem-estar emocional das crianças e jovens, além de ser uma forma importante de comunicação.

A brincadeira oferece oportunidade para a criança:
-mostrar suas características, seus sentimento, desejos que muitas vezes não consegue expressar através da fala,
-desenvolver a imaginação e criatividade,
-aprender a controlar o ambiente e seu comportamento neste meio,
-fortalece suas habilidades sociais, ou seja, "diferentes classes de desempenho social no repertório do indivíduo para lidar de forma competente com as demandas das situações interpessoais" (Del Prette & Del Prette, 2001, p.31). Exemplo de algumas habilidades: assertividade, empatia, autocontrole, expressividade emocional, habilidades sociais acadêmicas e outros,
-estimular a interação com o mundo,

Ao brincar a criança revive eventos que foram significativos, mostra seus sentimentos, comportamentos e dificuldades relacionadas a algumas situações. O ato de brincar permite que a criança procure soluções adequadas para comportamentos disfuncionais e através de brincadeiras e o uso da fantasias dirigidas, aumenta as chances da criança buscar alternativas para esses comportamentos inadequados que primeiramente atua através de personagens que representa e depois generaliza para o ambiente em que vive.

A brincadeira permite a criança desenvolver as habilidades necessárias para o futuro pois fornece experiências de vida crítica a qual as crianças podem se desenvolver como adultos confiantes e competentes.

Podemos destacar também a importância da interação dos pais nestas brincadeiras, aumenta a possibilidade de uma relação pai-filho saudável, essencial para a criança.

Vamos relembra:
-Quando vocês eram crianças, quanto tempo aproximadamente brincavam?

Apesar dos benefícios derivado das brincadeiras e jogos, o tempo destinado aos mesmos reduziu para a maioria das crianças.

O declínio da brincadeira e suas conseqüências

Alguns artigos e pesquisas relatam uma diminuição significativa neste tempo de brincar e como esta falta afeta o desenvolvimento emocional da criança, levando ao aumento de diversas doenças.

O que está interferindo nas brincadeiras das crianças?

"Desde cerca de 1955 ... brincadeira livre das crianças está continuamente em declínio, pelo menos em parte porque os adultos têm exercido o controle cada vez maior sobre as atividades das crianças", diz o autor Peter Gray, Ph.D., Professor de Psicologia (emérito) em Boston College.

Um estudo avaliou crianças de 6 a 8 anos de idade e comparou como as crianças passavam o tempo em 1981 e novamente em 1997. Os pesquisadores descobriram que, em comparação a 1981, as crianças, em 1997, gastaram menos tempo em jogo e brincadeiras e tinha menos tempo livre. Eles passaram de 18% mais tempo na escola, 145% mais tempo fazendo trabalho escolar, 168% fazendo compras com os pais. Os pesquisadores descobriram que, incluindo o jogo de computador, as crianças em 1997 gastavam apenas cerca de 11 horas por semana em brincadeira livre.

Em outro estudo, as mães eram convidadas a recordar brincadeiras de sua infância e comparar com o tempo de brincadeiras de seus filhos. 80% observaram que seus filhos brincavam com menos freqüência e por períodos mais curtos de tempo do que elas. As mães notaram que elas restringiram as brincadeiras infantis ao ar livre por causa de preocupações de segurança, abusadores de crianças, o tráfego rodoviário, e bullies.

Podemos somar resultados de algumas outras pesquisas que devem ser considerados como fator na diminuição do espaço do brincar na sociedade atual:
-crescimento das cidades,
-aumento da violência,
-ausência de espaços públicos voltados para o lazer,

Quais as conseqüências dessa nova tendência?

Esses foram acontecimentos que ocorreram e todos tiveram que se adaptar. Nos dias de hoje:
-pais e mães trabalham para ajudar na renda mensal
-as crianças ingressam mais cedo nas escolas
-muitas crianças realizam atividades extracurricular como forma de desenvolver aptidões e habilidades necessárias para terem um “futuro promissor”
-quando as crianças estão em casa, elas ficam expostas aos programas de TV que hoje bombardeiam as crianças com uma programação 24 horas com diversos estímulos de consumismo e informações indevidas e muitas vezes substitui o lugar do brincar.
-crescimento significativo de crianças que manuseiam computador ou brincam passivamente frente ao vídeo game.

Por conta do dia-a-dia atarefado das pessoas em busca da sobrevivência, esse brincar com a criança, ou oferecer subsídios para que ela o faça, fica cada vez mais em segundo plano.

Temos que destacar que não é que ninguém se propôs a fazer desaparecer com o tempo de brincadeiras livre, mas seu valor não tem sido reconhecido. Como resultado, o tempo dos miúdos de brincar livremente não foi protegido.

Seria errado dizer que as tendências atuais são um problema para todas as crianças, devemos sim reconhecer essas vantagens mas também não esquecer de proporcionar um momento de brincadeira para a criança.

Qual a conseqüência do declínio do tempo de brincar?

Houve um aumento significativo na ansiedade e depressão de 1950 aos dias de hoje, em crianças, adolescentes e adultos jovens.

Um estudo mostrou um aumento de 5 a 8 vezes mais crianças e estudantes universitários relataram depressão clinicamente significativo ou ansiedade, comparado há 50 anos atrás. Outro documentado mostra uma tendência similar em adolescentes de 14 a 16 anos de idade, nos anos entre 1948 e 1989.

Crianças com agendas lotadas estão a mercê da pressão da rotina que provoca grande estresse e diversos outros problemas podem surgir como:
-problemas de atenção
-distúrbios alimentares
-distúrbio do sono


Qual a solução?

Brincar é uma parte essencial do crescimento e pesquisadores acreditam que é fundamental para garantir que as crianças alcancem seu pleno potencial na vida.

Proporcionar um tempo diário para a criança se dedicar as brincadeiras, explorar, testar, investigar e descobrir a si mesma, os outros, os papéis sociais, valores familiares e por fim, o mundo.

Repensar no uso excessivo de entretenimentos passivos como televisão, computador e vídeo game.

"Os jogos da criança são o insubstituível lugar de uma auto-aprendizagem por si mesma, em que vemos que se trata de uma cultura livre... Por meio do jogo, a criança aprende a coagir a si mesma, a se investir de uma atividade duradoura, a conhecer e a desenvolver as forças do seu corpo." (Kant, 1787)

Abuso infantil altera o cérebro

Science Daily (5 de dezembro de 2011) 

Quando as crianças são expostas à violência familiar, seus cérebros se tornam cada vez mais "afinado" para o processamento de possíveis fontes de ameaça, relata um novo estudo. As descobertas, relatadas na edição 06 de dezembro da revista Current Biology, uma publicação Cell Press, revelam o mesmo padrão de atividade cerebral nessas crianças, como visto anteriormente em soldados expostos ao combate.

O estudo é o primeiro a aplicar a ressonância magnética funcional para explorar o impacto do abuso físico ou violência doméstica sobre o desenvolvimento emocional das crianças, de acordo com os pesquisadores.
 
"Reatividade melhorada para uma ameaça biologicamente importante, como a raiva pode representar uma resposta adaptativa para essas crianças a curto prazo, ajudando a mantê-los fora de perigo", disse Eamon McCrory da University College London. "No entanto, pode também constituir um fator de risco subjacente neurobiológicos aumentando sua vulnerabilidade a problemas de saúde mental, e particularmente a ansiedade."

Maus tratos é conhecido por ser um dos mais potentes fatores de risco ambientais associados com a ansiedade e depressão. Ainda assim, McCrory disse, "pouco se sabe como tal adversidade" fica sob a pele e aumenta a vulnerabilidade depois de uma criança, mesmo na idade adulta. "

O novo estudo mostra que crianças com exposição documentada a violência no lar diferem em sua resposta cerebral a faces contra raiva triste. Quando apresentado com rostos com raiva, as crianças com um histórico de abuso mostram aumento de atividade na insula anterior do cérebro e amígdala, regiões envolvidas na detecção de ameaças e antecipando a dor.

McCrory diz que as mudanças não refletem danos ao cérebro. Em vez disso, os padrões representam forma do cérebro de se adaptar a um ambiente desafiador e perigoso. Ainda assim, essas mudanças podem vir à custa de maior vulnerabilidade ao estresse mais tarde.

Embora os resultados não tem implicações práticas imediatas, elas não deixam de ser crítica, dado que uma minoria significativa de crianças estão expostas à violência familiar, McCrory diz. "Isto sublinha a importância de levar a sério o impacto de uma criança de viver em uma família caracterizada pela violência. Mesmo que essa criança não está mostrando sinais claros de ansiedade ou depressão, essas experiências ainda parece ter um efeito mensurável no nível neural . "

13º Festa do Livro da USP

Amigos,
Vocês lembram de minha última postagem a respeito da 13º Feira do Livro da USP?!
Pois é, remarcaram ... Oba!!!
 A programação contará com diversas editoras e disponibilizará obras literárias com 50% de desconto no mínimo.
O evento será nos dias 14,15 e 16/12 das 9h as 21h.
Vale a pena conferir!!!

Para mais informações:
(11) 3091-1617 ou site www.edusp.com.br/feiradolivro

Reflexão

"Nunca diga à uma criança que ela não vai conseguir ser ou fazer algo. Não se esqueça que ela esta em construção, em desenvolvimento e poderá conseguir ser ou fazer tudo o que quiser na vida. Quem está estacionado (a) é você adulto que já se acostumou a ser o que é. O mundo dá voltas, e um dia esta criança já adulta irá te encontrar e lhe mostrar o quanto mais inteligente, profissional e humana ela é. Eu acredito que toda criança é capaz de aprender, por isso não importa qual seja sua deficiência ou sua dificuldade, basta confiar em suas capacidades e desenvolver suas habilidades para o bem."
Regiane Souza Neves

Tenho CULPA?


Companheira inseparável das mazelas humanas desde que o homem convive socialmente, ela, a CULPA é parte integrante do crescimento de qualquer indivíduo, e velha conhecida de qualquer psicoterapeuta.

A questão do “por que sentimos culpa” não se deve exclusivamente à pessoa que sofre com ela. A culpa é uma questão de relação entre indivíduos, que transcende qualquer tipo de análise que possa ser focada unicamente na pessoa que a sente.

Gostaria de abordar neste texto as condições envolvidas para o aparecimento da culpa e como ela se mantém no comportamento dos indivíduos ao longo de suas vidas. Talvez o mais difundido comportamento social da espécie humana seja a punição. Punimos porque estamos zangados com uma pessoa, punimos a mesma pessoa porque estamos zangados com outra, punimos porque amamos alguém e isso é para o bem dessa pessoa. Punimos abertamente, punimos nas entrelinhas com palavras, entonação, olhares, e punimos aquilo que as pessoas fazem em proveito próprio, mas que nos prejudica de alguma forma. Punimos dando e retirando nosso afeto.

Talvez o afeto dos outros seja a forma de interação social mais desejada. Buscamos o afeto agradando ao outro, fazendo o que o outro gosta, sendo bem-sucedido, cuidando da aparência, e, sobretudo, não procurando desagradar ninguém que nos seja importante.

Afeto e punição: é deles a culpa.

Quando era pequeno, gostava que minha mãe fosse amável comigo, me desse carinho e atenção. Eu fazia muitas coisas para conseguir isso.

Eu não era muito bem-sucedido sempre.
Quando era, me davam afeto e carinho.

Quando não era, eu recebia uma palmada e era deixado por um tempo sem o carinho e afeto que tanto desejava.

Diziam-me algumas coisas que, na época, não compreendia bem:

Menino feio, não pode fazer isso, por sua culpa mamãe agora tá brava
etc.

Tal cena não é tão incomum de se ver por aí. E não tem nada de mais as mães quererem controlar o comportamento de seus filhos. Afinal, elas estão aí para isso. E a punição é o modo mais comum e disponível de se fazer isso.
Culpa delas, não...

Mas isso tem algumas conseqüências divertidas sobre o nosso comportamento.
Uma pequena história:

Quando fiquei um pouco mais velho e cheio de vontades, aprendi a não deixar de fazer as coisas que queria, como também continuei gostando desse vício que é ser gostado por outros.
Mas duas coisas me aconteceram: comecei a gostar muito de doces.

Eu passei a compreender o que as pessoas falavam.
A conseqüência dos doces foram quilinhos a mais, que tanto preocuparam minha mãe e o meu médico.
O efeito de compreender o que os outros falavam pode ser vista abaixo:

Um dia, após muito tempo de regime e controle do meu peso, soube que minha tia havia deixado um pote cheinho de Biscoitos Chocolate Chips Cookies em um recipiente com a cara do Mickey mouse na cozinha da minha casa.
Estranhamente, durante três dias, a cozinha me pareceu um lugar mais atrativo do que já era.

No fim do terceiro dia, então resolvi dar uma conferida no pote com a cara do Ratinho americano só pra ver o que tinha dentro.
Estranhamente, na hora não havia ninguém em casa também.

Ao abrir o recipiente, fui atacado por um aroma delicioso de baunilha, que me deixou muito feliz. Ao aproximar o nariz, senti então outro aroma dos deuses, que foi o das pequenas e semiderretidas gotas de chocolate, que parecia passar do meu nariz e atacar diretamente alguma glândula obscura do meu cérebro.
COMI!

Talvez a mais sublime elação sentida na minha vida foi aquela dentada na massa macia e saborosa daquele biscoito. Possivelmente exibi um sorriso digno de um livro de recordes.
MENINO!!!!!! O QUE ESTÁ FAZENDO?

Olhando para o lado, vejo, nada mais, nada menos, que minha progenitora a me fitar com uma cara que me lembrou instantaneamente a cara que tantas vezes fez depois de me dar uma palmada quando era menor. Podia quase sentir meu traseiro latejando no momento.
Oi, mãe...........er......... você por aqui? (falando e cuspindo farelos, meu sorriso agora era mais amarelo do que uma camisa da seleção).

EU NÃO ACREDITO NISSO!

EU ME MATO PARA TE AJUDAR,

PERCO MEU SONO DE PREOCUPAÇÃO COM A TUA SAÚDE

E MEU DINHEIRO PRA TE LEVAR NO MÉDICO.

A CULPA É SUA SE VOCÊ ENGORDAR TUDO DE NOVO E VOLTAR A TER PROBLEMAS...

VOCÊ NÃO TEM JEITO MESMO.

Eu poderia ter dormido melhor na minha vida se ficasse sem compreender o que os outros dizem.
Mas, traduzindo o que minha mãe disse na hora, soaria mais ou menos assim, nos ouvidos do menino:

Se ela se mata para me ajudar, significa que o que eu fiz (comer biscoito) a prejudicou também. Seu esforço em me ajudar foi em vão.
Se ela perde o sono, significa que minha saúde a está deixando mal e preocupada.

Se ela perde dinheiro, significa que por minha culpa não vou ganhar presente de Natal.
Devido à minha pessoa, que come doces, minha mãe sofre, e eu vou sofrer também.

Tudo isso significa que é bem provável que agora minha mãe goste menos de mim.
E, de repente, me lembro dos tempos em que perdia o afeto dela.

Junto a isso ocorrem pensamentos de que é tudo por minha causa, eu realmente não tenho jeito. Sou fadado a sempre não ter o que eu gosto e, se eu tiver o que eu gosto, eu perco outras coisas também. Como o tão necessário afeto da minha mãe.
Em suma, eu não tenho jeito mesmo. Sou CULPADO por minha ruína.

- Mãezinha?

- Sim, filhinho?

- Você ainda gosta de mim?

- Gosto sim... Mas só se você parar de comer.

O texto acima é ilustrativo do mecanismo básico do processo de ocorrência da culpa.
Uma pessoa quer ter acesso a certas coisas boas do mundo, tais como comida, afeto, liberdade de agir, etc.

Essas coisas são mediadas por pessoas relacionando-se em comunidades ou instituições: família, Igreja, trabalho.

Muitas vezes, o que é recompensa para um indivíduo não é agradável a outros indivíduos que estão envolvidos na sua obtenção. Logo, surgem sanções AO INDIVÍDUO. Por exemplo, uma pessoa que fuma tem seu prazer com o fumo. Mas, para seu cônjuge, pode ser aversivo, visto que o cigarro pode matar a pessoa que se ama. Uma pessoa tem prazer em relações homossexuais, mas isso é aversivo para sua família e seu grupo de amigos. A pessoa que fuma pode perder o afeto do cônjuge se insistir com seu vício. O homossexual pode perder o afeto, o respeito, e ter o afastamento das pessoas que ama se contar sua condição.

Ao fumar, o fumante lembra-se das palavras ditas pelo cônjuge: "Se você morrer de câncer por causa do cigarro eu vou sofrer. Você está acabando com você e comigo também".

Ao ter uma relação homossexual, o homossexual lembra-se que, se continuar com isso, com certeza terá menos respeito e afeto da família, e imagina cenas de brigas, de humilhação e verbalizações de sua família condenando seu comportamento homossexual.

Esse sentimento misto, de se ter algo de que se gosta, mas isso, ao mesmo tempo, produzir aversividade nos outros (que, por sua vez, nos punem ou retiram nossas recompensas, especialmente as afetivas), é o que chamamos de culpa.

Culpa advém das regras do grupo em que se vive e se valoriza. Se não valorizássemos as outras pessoas de nossas relações, não sentiríamos culpa quando fizéssemos coisas que as levariam a sofrer. Seríamos indiferentes e não sentiríamos a aversividade da culpa.

O problema maior da culpa é a questão de imporem-se sanções AO INDIVÍDUO e não ao comportamento específico que produz alguma conseqüência aversiva para os outros e para si.

A fala da mãe do menino, ao repreendê-lo, foca-se na idéia de que o indivíduo é o responsável pela situação, e não uma de suas muitas ações diárias que pode ser passível de modificação por outros métodos. Daí a culpa estar ligada a pensamentos de autodesvalorização, de menos valia, de irresponsabilidade. Pune-se o indivíduo e não somente a parte de seu comportamento que é problemático; então, ele pensa: “eu valho pouco”.

Modificar essa relação causal entre comportamento inadequado – sanção social, retirada de recompensas, sentimento de culpa e autodesvalorização, não é fácil.

É necessário avaliar quando a culpa é ou não funcional. Sentir-se culpado por ferir seu irmão menor ou algum animal indefeso é socialmente funcional. Sentir-se culpado pelo divórcio dos pais é uma fantasia prejudicial. Sentir-se culpado por algum erro e, então, não cometê-lo novamente é funcional. Sentir-se culpado por não conseguir fazer algo que está além de suas possibilidades é algo prejudicial.

A Terapia Comportamental tem-se mostrado eficaz na diminuição da culpa não funcional, por meio de reformulações de regras, mudanças de atitudes, e valorização do indivíduo, retirando deste a idéia de que suas atitudes errôneas que o fazem sentir-se culpado são como uma doença da qual não consegue livrar-se.

Todos nós dependemos e sempre dependeremos do afeto dado pelo outro. Apenas devemos ter consciência do nosso real valor e de que, algumas vezes, outras pessoas não darão esse afeto de propósito, mas que isso não nos diminui como indivíduos, e que poderemos sempre nos modificar para sermos mais felizes.

Por: Adilson Klier Péres Junior

Como lidar com os filhos


O bem estar da criança está intimamente ligado com a habilidade de seus pais. Não é incomum encontrar, na clínica infantil, crianças cujos problemas poderiam ser resolvidos caso os pais tivessem alguma instrução sobre análise do comportamento. Este pequeno guia sobre como lidar com os filhos tem o objetivo de prevenir problemas e fornecer ferramentas aos pais para resolverem possíveis problemas de comportamento dos filhos.

POR QUE NOS COMPORTAMOS?

Para começar, vamos entender por que nos comportamos.

O mais importante a saber é que fazemos o que fazemos porque fomos ensinados. Tudo o que fazemos é aprendido, até mesmo os comportamentos inadequados dos nossos filhos. Se os pais não ajudam o filho na escola, não pedem para eles arrumarem o quarto, não se preocupam se eles saem à noite, com certeza as crianças vão aprender que não precisam estudar, não precisam arrumar o quarto e podem sair para onde quiserem. O fato de que comportamentos são aprendidos é uma boa notícia: significa que podemos ensinar maneiras diferentes de agir. Podemos identificar quais são os comportamentos dos nossos filhos que são inadequados, e criar situações para que eles aprendam melhores formas de se comportar. Para isso, precisamos entender melhor sobre os motivos do comportamento.

Em primeiro lugar, as pessoas se comportam para conseguir algo que querem. Por exemplo: abrimos a geladeira para pegar água, vamos à escola para aprender, convidamos nossos amigos para brincar porque eles nos fazem bem, e assim por diante. Também nos comportamos para evitar algo que é desagradável. Por exemplo: colocamos blusas quando está frio, estudamos para não ir mal à prova, tiramos o sapato se há uma pedra, etc.

Outra propriedade importante do comportamento é que ele é diferente em lugares diferentes. O comportamento na sala de aula difere do comportamento no recreio. As ações diante do chefe diferem das realizada na presença do marido ou da esposa. É importante saber disso porque é comum que nossos filhos se comportem de maneira inadequada com o pai, mas não com a mãe, ou somente na escola e nunca em casa. Se conseguirmos identificar em que situações e com quais pessoas nossos filhos se comportam de forma errada, mais facilmente podemos corrigir esse comportamento.

Vamos usar o exemplo da criança que faz arte na presença do pai e não da mãe. Podemos supor que parte do problema está no fato de que o pai não deve estar estabelecendo regras para a criança, enquanto a mãe consegue impor limites. Agora imaginem uma criança que só estuda na véspera da prova. Muito provavelmente ela faz isso porque os pais não a incentivam a estudar um pouco a cada dia. Se a criança cuidada pela avó faz birra somente quando a mãe, que trabalha o dia todo, chega em casa, isso pode significar que ela está tentando chamar a atenção da mãe com a birra. Esses exemplos mostram a importância de saber em quais situações e com quais pessoas as crianças se comportam inadequadamente. A identificação desses momentos é fundamental para planejar a mudança do comportamento.

A RESPONSABILIDADE DOS PAIS

Os pais, se desejam ajudar os filhos a corrigir comportamentos problemáticos, devem assumir a responsabilidade pelo que está acontecendo. O que os filhos fazem está relacionado com o comportamento dos pais. Portanto, há sempre algo que pode ser feito para o bem das crianças. É fundamental que os pais assumam a responsabilidade porque eles são as pessoas mais importantes para os filhos e é principalmente na convivência familiar que a criança se desenvolve.

Agora que já foi falado sobre os motivos do comportamento, os pais precisam saber que existem quatro formas diferente de lidar com as ações dos filhos.


A primeira e mais recomendável forma de lidar com os comportamentos dos filhos é premiar as ações positivas com elogios, carinhos, presentes, passeios, comidas preferidas, etc. O comportamento positivo premiado tende a ocorrer novamente. Esse prêmio, no entanto, não deve vir após uma ameaça e deve ocorrer da forma mais natural e menos planejada possível. O prêmio também não deve ser apresentado sempre, mas apenas de vez em quando. Crianças que ouvem palavras de incentivo dos pais crescem felizes, saudáveis e autoconfiantes. Os melhores pais são aqueles capazes de dar atenção aos filhos. É preciso tomar cuidado para o prêmio não virar chantagem. Repito: o prêmio (seja carinho, passeio, etc) deve ser o mais natural e menos planejado possível. Pais que premiam sempre e fazem todas as vontades dos filhos podem estar criando crianças mimadas que terão problemas de se adaptar à realidade. Crianças que têm tudo o que querem não desenvolvem autoconfiança e têm dificuldades em lidar com a frustração.


A segunda forma de lidar com os comportamentos dos filhos é não fazer nada. Há pais que, independentemente do que os filhos fazem, seja bom ou ruim, nada fazem: não dão prêmios ou broncas, não fazem carinhos nem deixam de castigo. Pais que não se importam para o que os filhos fazem podem estar criando adultos com dificuldade de aprendizagem, com baixa auto-estima e baixa autoconfiança. Essas crianças podem se tornar adultos apáticos, incapazes até mesmo de conhecer suas próprias preferências.

A terceira forma é motivar o filho com algum tipo de ameaça. Por exemplo, há pais que criam regras como “se você não estudar, vai ficar de castigo” ou “ou você arruma o quarto ou vai apanhar”, e assim por diante. Essa forma de lidar com as ações dos filhos apenas empurram o problema para frente, mas não o resolvem. Filhos que crescem recebendo ameaças não são capazes de entender o porquê devem se comportar de maneira positiva. Serão adultos desconfiados e com medo de errarem.

A quarta forma é brigar ou bater nos filhos sempre que eles fazem algo errado. Apesar de parecer a mais funcional das formas, é a menos recomendada. Filhos que apanham ou são xingados pelos pais se tornam adultos violentos, sem nenhum amor próprio e sem autoconfiança. Alguns estudos correlacionam a violência na infância com criminalidade. Por isso, bater ou xingar é a pior maneira de lidar com os filhos. Sempre que possível, os pais devem evitar punir suas crianças. Como dito anteriormente, é muito melhor ensinar os filhos por meio da premiação.

DO QUE AS CRIANÇAS GOSTAM

Agora que os pais sabem a melhor forma de lidar com os comportamentos dos filhos, é válido falar sobre o que as crianças gostam. Se os pais souberem o que é importante para seus filhos, é mais fácil que cuidem deles com atenção e carinho.

Segue uma lista de coisas que as crianças gostam:

1. Brincar: a brincadeira é fundamental para as crianças aprenderem a se relacionar socialmente e conhecer seus limites. Por meio das brincadeiras, elas desenvolvem sua inteligência, imaginação e passam a aprender a diferenciar suas preferências das de outras pessoas.

2. Receber carinho e atenção: tanto meninas quanto meninos gostam de receber carinho e atenção dos pais. Carinho faz com que as crianças se sintam felizes, possibilitando que cresçam com saúde, auto-estima e autoconfiança.

3. Ser ouvido: permita que seus filhos contem histórias, ainda que fantasiosas. Ser ouvido faz com que a criança se sinta valorizada.

4. Poder decidir: meninos e meninas adoram tomar decisões. Uma vez por semana, deixe seu filho escolher o jantar. Permita que ele escolha qual canal assistir, qual refeição comer, etc. Isso é ótimo para autoconfiança dele e ajuda no crescimento saudável.

5. Aprender coisas novas: crianças são curiosas por natureza. Elas gostam de explorar o ambiente, fazer perguntas, etc. Ajudem-nas nisso. Crianças incentivadas a aprender se tornam mais inteligentes e capazes. Portanto, respondam as dúvidas dos seus filhos.

6. Não ser comparado: não é correto comparar um dos seus filhos com seus irmãos ou com outras crianças. Cada pessoa é única e deve ser tratada assim.

7. Ser valorizado: meninos meninas adoram quando os pais prestam atenção no que fazem e elogiam seu trabalho. Elogiar e prestar atenção é uma boa maneira de criar auto-estima e autoconfiança.

COMO VOCÊ DEVE TRATAR SEU FILHO

A melhor forma de evitar dificuldades é prevenindo sua ocorrência. Um lar pacífico evita crianças com problemas de comportamento. Hoje em dia, a pressão do trabalho é grande. Os pais chegam em casa estressados e cansados e não têm vontade, ou tempo, de estar com os filhos. É compreensível. No entanto, isso não pode servir como desculpa para uma má educação. Se os pais se esforçarem e criarem um ambiente agradável em casa, vão chegar do trabalho com mais energia, pois vão encontrar paz e o carinhos dos filhos. Se os pais não dão atenção ao lar, o caos se forma e chegar do trabalho pode se tornar desagradável. Portanto, investir na paz em casa é benéfico tanto para os pais quanto para os filhos.

Seguem algumas dicas para um ambiente saudável e para lidar adequadamente com as crianças:

1. Seja honesto e direto com seus filhos. Às vezes as crianças fazem perguntas desconcertantes, ou querem saber o motivo de certas proibições. O melhor caminho a tomar é explicar para os filhos as razões de tudo. Se uma criança entender por que deve olhar para os dois lados antes de atravessar a rua, é muito mais provável que faça isso com cuidado do que se simplesmente ouvir a regra e levar bronca no caso de não segui-la.

2. Tenha certeza de que ensinou o comportamento correto. Muitas vezes exigimos que nossos filhos façam as coisas do nosso jeito, mas não ensinamos exatamente como é esse jeito. Então, antes de brigar com seu filho, tenha certeza de que você deixou claro para ele qual é a maneira correta de se comportar.

3. Todas as pessoas são diferentes. Lembre-se sempre que cada pessoa é única e tem gostos e preferências particulares. Antes de dar uma ordem, de brigar com seu filho, de dizer que ele não faz nada direito, pense nas preferências dele. Não é justo exigir que todas as pessoas sejam iguais a você. É saudável respeitar as particularidades das pessoas.

4. Seja firme, mas não punitivo. Já foi falado sobre o problema de ser punitivo, mas não dos benefícios de ser firme. Ter firmeza significa não voltar atrás nas suas decisões. Uma proibição deve se manter uma proibição até que a situação mude de alguma forma. Pais que voltam atrás em suas decisões podem gerar filhos sem limites. Por exemplo: é muito comum que os pais deixem o filho de castigo, mas o tirem com antecedência por ficarem com dó da criança. Ser firme, nesse caso, consiste em não tirar a criança do castigo até que a determinação inicial tenha sido cumprida.

5. Passe um tempo com seu filho. Após chegar do trabalho, ou nos fins de semana, passe um tempo com seu filho. O ideal é conversar um pouco e brincar com ele. Se não for possível, pelo menos jantem no mesmo horário e assistam ao programa favorito da criança. Filhos que não passam tempo com os pais podem desenvolver problemas em relacionamentos e dificuldade em confiar em outras pessoas.

6. Interesse-se pelas tarefas da escola. É comum que os pais pensem que o filho tem a obrigação de estudar. Isso é só parcialmente correto. Os filhos devem, sim, freqüentar a escola, mas ao invés de serem forçados, devem ser incentivados a isso. Pais que se interessam pelo que aconteceu na escola, que vistam as tarefas escolares, que ajudam os filhos a estudarem para as provas e que participam dos eventos da escola, estão contribuindo não só para a formação imediata do filho, mas para seu futuro de interesse pelos estudos. Não é preciso saber sobre o que os filhos estão estudando. Mostrar interesse basta para incentivar a criança.

7. Sejam coerentes. Há pais que dividem os papéis. Um deles é o liberal e o outro, o chato. Isso deve ser evitado. O ideal é que os pais entrem em acordo sobre os limites dos filhos e sobre possíveis punições ou prêmios. Pais discordantes podem deixar o filho confuso, além do fato de que as crianças podem passar a preferir um do pais ao outro, o que não é desejável nem saudável.

8. Imponha limites. Crianças precisam saber até onde podem ir. Tratar bem o filho não é sinônimo de deixá-los fazer o que bem entenderem. Os limites são importantes, pois protegem os filhos de fazerem algo perigoso ou que pode ser socialmente considerado ruim. Por meio dos limites, as crianças aprendem que há regras no mundo e que é preciso obedecê-las como todos fazem. Os limites devem ser pensados para não serem muitos nem poucos. Crianças com muitos limites crescem com medo de errarem e arriscarem. Crianças com poucos limites podem se tornar sem valores morais.

9. Reconheça seus erros. Ninguém é infalível. Se você cometeu algum erro com seu filho, não tenha medo de admitir. Além de fazer bem para você e para a criança, isso vai ensiná-la a se responsabilizar por seus atos.

10. Converse também sobre assuntos delicados. Muitas crianças têm curiosidade sobre sexo, morte ou outros assuntos do tipo. O ideal é não esconder delas o que são essas coisas, e falar sobre esses temas de uma forma apropriada para cada idade. Uma criança de 7 anos não precisa saber tudo sobre sexo, mas é bom que saiba o que é isso. Já uma criança de 16 anos precisa saber tudo sobre sua sexualidade. Apesar de esses assuntos serem tabus, eles precisam ser tratados. A honestidade e clareza com a criança pode prevenir problemas futuros.

11. Seja um modelo. Filhos imitam os pais. É injusto exigir do filho um comportamento que os pais não demonstram.

12. Procure ajuda. Caso essas dicas não ajudem, procurem ajuda de um profissional. Problemas graves, como abuso de drogas, podem requerer auxílio de uma pessoa especializada no problema. Não há vergonha em pedir ajuda. Pelo contrário, é nobre querer ajudar o filho.

Por: Robson Brino Faggiani - Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina, Especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva (USP) e Mestrado em Psicologia Experimental (USP). Atualmente, está realizando doutorado na Universidade de São Paulo

Elogie do jeito certo

Recentemente um grupo de crianças passou por um teste muito interessante: psicólogos propuseram uma tarefa de média dificuldade, mas que as crianças executariam sem grandes problemas. Todas conseguiram terminar a tarefa depois de certo tempo.

Em seguida, foram divididas em dois grupos:

- O grupo A foi elogiado quanto à inteligência. Uau, como você é inteligente! Que esperta você é! Menino, que orgulho de ver o quanto você é genial! E outros elogios à capacidade de cada criança.

- O grupo B foi elogiado quanto ao esforço. Menina, gostei de ver o quanto você se dedicou na tarefa! Menino, que legal ter visto seu esforço! Que persistência você mostrou. Tentou, tentou, até conseguir, muito bem! E outros elogios relacionados ao trabalho realizado e não à criança em si.

Depois dessa fase, uma nova tarefa de dificuldade equivalente à primeira foi proposta aos dois grupos de crianças. Elas não eram obrigadas a cumprir a tarefa, podiam escolher se queriam ou não, sem qualquer tipo de consequência. As respostas das crianças surpreenderam.

A grande maioria do grupo A simplesmente recusou a segunda tarefa. As crianças não queriam nem tentar.

Por outro lado, quase todas as do grupo B aceitaram tentar. Não recusaram a nova tarefa.

A explicação é simples e nos ajuda a compreender como elogiar nossos filhos: o ser humano foge de experiências que possam ser desagradáveis. As crianças inteligentes não querem o sentimento de frustração de não conseguir realizar uma tarefa, pois isso pode modificar a imagem que os adultos têm delas. Se eu não conseguir, eles não vão mais dizer que sou inteligente. As esforçadas não ficam com medo de tentar, pois mesmo que não consigam é o esforço que será elogiado.

No entanto, isso não é tudo. Além dos conteúdos escolares, nossos filhos precisam aprender valores, princípios e ética. Precisam respeitar as diferenças, lutar contra o preconceito, adquirir hábitos saudáveis e construir amizades sólidas. Não se consegue nada disso por meio de elogios frágeis, focados no ego de cada um. É preciso que sejam incentivados constantemente a agir assim. Isso se faz com elogios, feedbacks e incentivos ao comportamento esperado.

Nossos filhos precisam ouvir frases como: – Que bom que você o ajudou, você tem um bom coração. – Parabéns, meu filho, por ter dito a verdade apesar de estar com medo… Você é ético. - Filha, fiquei orgulhoso de você ter dado atenção àquela menina nova ao invés de tê-la excluído como algumas colegas fizeram… Você é solidária.

Elogios desse tipo estão fundamentados em ações reais e reforçam o comportamento da criança, que tenderá a repeti-los. Isso não é tática paterna, é incentivo real. Elogiar superficialmente é mais fácil para os educadores, pois tais expressões quase sempre são padrões e não exigem reflexão por parte de quem as diz. Mas, os pais esforçados não devem estar atrás de soluções fáceis, mas sim das melhores soluções para a educação de seus rebentos.

Aprendamos,assim, a elogiar corretamente, reforçando comportamentos positivos, contribuindo na formação de homens e mulheres de bem.”

Reflexão


"Adotar é acreditar que a

história é mais forte que a

hereditariedade, que o amor

é mais forte que o destino."

Lidia Weber

TDAH - Programa Mais Você e a resposta da Associação Brasileira de Psiquiatria

Na segunda feira, 28 de novembro, o programa Mais Você (clique no nome do programa para assistir) apresentou duas reportagens e uma entrevista, ambos relatam a ascendência do uso do medicamento metilfenidato e aumento dos diagnósticos de TDAH.
Bem, peço que antes de tudo, assistam ao programa e leiam a Carta da Associação Brasileita de Psiquiatria (clique na nome para ler) que respondeu a este programa.

Bem, na minha opinião, TDAH existe SIM mas muitas crianças sem limites ou sob pressão são diagnosticadas com este transtorno. Minha experiência compartilho com vocês neste momento: já tive um paciente diagnosticado por um psiquiatra com esta doença e com a mudança de psiquitra, este outro retirou o metilfenidato e substituiu por algo mais leve e solicitou que a criança fizesse uma Terapia Comportamental. Bem, deu certo, a criança está ótima e não tinha TDAH.

Bem, da mesma forma que tive esta experência, acredito que há profissionais que tenham uma experiência oposta a minha.

O que gostaria de passar para vocês é que mais uma vez, temos que pensar, refletir!
 
Aliás, leiam também uma matéria que postei mês passado sobre A crescente medicalização, valerá a pena para tirarem suas conclusões!!!



A lei de proibição da palmada e a educação dos filhos


Ponto de Vista

Recentemente sancionada pelo presidente Lula, a chamada Lei da Palmada - projeto de lei que proíbe aos pais o uso de castigos físicos em crianças e adolescentes - gerou polêmica entre educadores. Jaíde Regra alerta que toda lei deve ser acompanhada de medidas que garantam o seu cumprimento. Portanto, é necessário orientar e instrumentalizar os pais sobre formas de intervenção mais eficazes na família, sem o uso da punição. Isso porque eles não aprenderão a ensinar limites a seus filhos por decreto.

Assinado pelo presidente Lula, o projeto de lei que proíbe aos pais o uso de castigos físicos em crianças e adolescentes gerou polêmicas entre educadores. De acordo com a proposta, a nova lei será incorporada ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), penalizando pais, professores, babás e demais cuidadores que fizerem uso de palmadas, empurrões, beliscões e puxões de cabelo. O Estatuto já condena maus tratos contra a criança e o adolescente, embora não defina esses termos de forma precisa. A nova lei especifica os maus tratos,nomeando cada comportamento. Embora já existisse uma legislação para ocorrências de agressão física, até então não havia se cogitado incorporar uma palmada na lei, nem tampouco encaminhar casos desse tipo ao Judiciário. Para uma lei ser efetiva, entretanto, é necessário garantir sua aplicabilidade por meio das sanções cabíveis. Ao mesmo tempo, é necessário garantir a exequibilidade dos comportamentos a serem emitidos em obediência à lei. A chamada Lei da Palmada procura proteger ainda mais a criança, uma vez que proibir agressões de menor intensidade pode auxiliar na prevenção de danos maiores. Muitos pais, seja na clínica ou fora dela, se colocam contrários ao bater, afirmando que nunca agrediram seus filhos. No máximo, umas “palmadinhas” de vez em quando. Os pais, em geral, costumam perguntar se usar palmadinhas eventuais é errado ou se pode fazer parte da educação da criança, sem lhe fazer mal. Como ficaria a imposição de limites à criança sem o instrumento, tão propagado na cultura, que incorpora o castigo como parte do sistema de educação infantil?

A punição tem sido usada em diferentes culturas como forma de intervir sobre o comportamento do outro, de modo a exercer um controle sobre ele. A punição pode ocorrer entre indivíduos ou entre as agências de controle e os indivíduos. Existe a crença de que, se o indivíduo se comportou mal, deve ser punido. Se os pais receberam palmadas dos seus pais e se tornaram pessoas “educadas”, desconhecendo uma forma melhor de lidar com a criança, eles lançam mão do mecanismo conhecido. Supõe-se que a punição fará com que o indivíduo pare de se comportar mal. Porém, não é bem assim. Embora alguns pais admitam usar palmadas, chinelos e cintas como forma de controlar os filhos, eles costumam referir que tal maneira de educar não funciona e a criança continua a se comportar de modo indesejado pelos pais. Afinal, por que isso ocorre? Para analisar com mais detalhes, é necessário nos reportar à literatura científica e descrever o resultado de estudos do efeito de estímulos aversivos. sobre o comportamento humano.

Tecnicamente falando, Baum (1999) descreve a punição como uma relação entre um estímulo e uma ação. O que definiria um estímulo é seu efeito. Azrin e Holz (1966) afirmam que a punição tem o efeito de reduzir a probabilidade futura de uma resposta específica, como resultado da liberação imediata de um estímulo que se segue à resposta. Bater numa criança pode ou não reduzir a freqüência do comportamento indesejado pelos pais. Quando reduz a probabilidade da ocorrência futura do comportamento, nomeamos tal procedimento de punição; quando não reduz a probabilidade de ocorrência futura, dizemos que o bater não deve ser denominado punição. Em qualquer situação, ao ser aplicado um estímulo aversivo, a mãe pode estar ensinando à criança a ficar com raiva do punidor. O estado de raiva dificulta a discriminação do próprio comportamento, muitas vezes obstruindo a mudança. Ao analisar os efeitos colaterais da punição, agrupando as análises de Skinner (1967) e Sidman (1995), Banaco (2004) relaciona cinco itens relevantes:

(1) por não suspender a relação de contingência entre a resposta e o estímulo reforçador que a mantém, a punição apenas suprime a resposta indesejada na presença do agente punidor;

(2) seu caráter aversivo provoca efeitos emocionais negativos, cuja consequência são respostas de fuga-esquiva que poderão ser reforçadas se diminuírem, evitarem ou suspenderem a estimulação aversiva;

(3) ela pode ter como efeito uma tendência à agressão e à destruição, possivelmente dirigida à própria fonte de estimulação aversiva;

(4) a punição também reduz o repertório do organismo-alvo;

(5) além disso, o indivíduo não aprende um outro comportamento: o agente punidor ensina apenas o que não deve ser feito, mas não ensina um outro jeito de se comportar.

Na orientação de pais, baseada na psicologia analítico-comportamental, a punição física é analisada à luz de seus efeitos indesejáveis. Nos pais, o efeito é de descarregar a raiva, sem função educativa, ou melhor, com uma função de ensinar algo diferente daquilo que se pretende que seja aprendido. Na criança, um dos efeitos, pode ser o de redução na frequência do comportamento indesejado, na presença do punidor, e aumento da frequência, na sua ausência. A punição, como uma técnica questionável, foi analisada por Skinner (1967) como uma forma de controle presente no padrão de comportamento das famílias, sendo aplicada com a finalidade de reduzir a frequência de determinados comportamentos. Skinner afirma que, a longo prazo, a punição traz desvantagens tanto para quem a recebe como para quem a aplica. O autor analisa alguns possíveis efeitos da punição, exemplificando com uma situação em que a mãe belisca a criança para ela parar de rir na igreja. O beliscão elicia respostas incompatíveis com o riso. Quando a criança estiver rindo em outras situações adequadas, este comportamento poderá fornecer estímulos condicionais que eliciem respostas emocionais opostas.

A ciência da análise do comportamento contém um corpo de princípios e dados que podem conduzir a alguma objetividade, com relação à tomada de decisão sobre punir ou não punir (Sidman, 1995). Pouco se tem contado ao público sobre essas descobertas e as implicações sobre as melhores formas de conduzir os problemas do cotidiano. “Algumas vezes punimos porque somos seres humanos falíveis e cometemos erros” (Sidman, 1995). Esse autor descreve alguns efeitos da punição a partir de resultados de pesquisas. Como primeiro efeito colateral, ele destaca que qualquer sinal de punição adquire a habilidade para punir por si mesmo. Assim, a simples visão de uma mão erguida pode interromper um comportamento. A cada novo elemento punidor, nossas vidas tornam-se menos satisfatórias. Se formos submetidos à punição frequente, aprendemos que é mais seguro ficar quieto e se comportar menos (pelo menos na presença do punidor). Sidman (1995) acrescenta em sua análise uma explicação sobre o comportamento de muitos alunos detestarem ir à escola, mostrando como ambientes inteiros podem se tornar reforçadores ou punidores por si mesmos. Quando os estudantes são reforçados por tirar notas altas, pelo respeito de seus professores e pela admiração de seus colegas, provavelmente freqüentam regularmente a escola. Por outro lado, quando são punidos por notas baixas, desaprovação e humilhação por parte de seus professores e dos colegas, provavelmente eles se mantêm fora da escola tanto quanto possível. Um outro efeito destacado por Sidman (1995) e muito importante na relação entre pais e filhos, assim como na relação entre qualquer punidor e punido, diz respeito ao fato de pessoas que usam punição tornarem-se elas mesmas puni dores condicionados. Elas poderão ser temidas, odiadas e produzirão comportamentos de esquiva nas pessoas com as quais se relacionam. Em outras palavras, qualquer um que use choque torna-se um choque. Muitos pais relatam que punem o mau comportamento para a criança aprender a fazer coisas certas e, sobretudo, por acreditarem que é dessa forma que serão respeitados. Eles crêem que respeito se impõe, ao invés de ser conquistado. A mãe que briga com a criança na hora de fazer a lição não apenas “contamina” o material acadêmico com emoções desconfortáveis, mas também ensina ao filho a evitar as tarefas, sem contar os prejuízos à qualidade do relacionamento afetivo entre ambos. Nesse sentido, cabe questionar: há alternativas à punição? Um pai seria respeitado se nunca desse uma palmada no filho? Uma mãe conseguiria que seu filho gostasse da escola e sentisse prazer pelo aprender se não ocorresse nenhum desentendimento na hora da lição? Como seria o mundo sem palmadas e beliscões? Teríamos crianças sem limites e que só fazem o que querem, ou teríamos crianças mais felizes?

Os pais trazem essas importantes questões e muitos deles estão realmente perdidos e desinformados sobre as maneiras de educar seus filhos. Há necessidade de orientar e instrumentalizar os pais sobre formas de intervenção mais eficazes na família, sem o uso da punição. Os pais não aprenderão a ensinar limites a seus filhos por decreto. O decreto de lei produz medo de punição e das sanções previstas, mas se os pais ficarem preocupados com as conseqüências de dar tapas e beliscões poderão buscar outras formas de lidar com a criança. Toda lei deve vir acompanhada das formas que favoreçam o seu cumprimento. O que os pais querem realmente para seus filhos? Querem ter filhos responsáveis que sintam prazer ao estudar e façam suas obrigações sem brigas, sem infinitas ordens e sem reclamações. Querem que seus filhos sejam felizes e que as relações diárias ocorram sem grandes estresses. As queixas sobre os desgastes das relações pessoais entre os membros da família durante o dia-a-dia são comuns. Os pais querem saber como acabar com o estresse da família e aumentar os bons momentos com as crianças. Tanto na família como na sociedade em geral, os indivíduos estão submetidos a diversos controles aversivos. Esses controles podem ser nomeados como coerção. Coerção é controle por meio de reforçamento negativo e punição. O reforçamento positivo controla comportamento tanto quanto a coerção, mas sem os subprodutos dela – violência, depressão, inflexibilidade emocional e intelectual, ódio e estados de infelicidade (Sidman, 1995). Pensar numa sociedade que utilize de reforçamento positivo, eliminando todo controle aversivo que for possível, ajuda a colocar em prática outras formas de controle de comportamento.

Quando uma mãe para de brigar com o filho para que ele faça a lição, não quer dizer que deixará seu filho ficar sem fazer as tarefas. Essa mãe pode combinar com o filho um conjunto de regras para formação de responsabilidade, mostrando que todos nós temos direitos e deveres. Quando cumprimos nossos deveres, conquistamos nossos direitos. Assim que o filho acabar a lição, poderá ver TV, usar o computador ou fazer qualquer outra coisa de que goste muito. A mãe estará ensinando os comportamentos de escolha pela consequência, atitude fundamental para desenvolver autocontrole e responsabilidade. Ensinar o filho a ser responsável requer dos pais o desenvolvimento de uma habilidade que necessita ser aprendida. Responsabilidade é um nome dado a uma classe de comportamentos que contém muitos membros. Para ensinar uma criança a ser responsável, deve-se ensinar um conjunto de comportamentos. A criança necessita

aprender que seu comportamento tem um efeito sobre o ambiente. Se emitir o comportamento A, a consequência será X; se emitir o comportamento B, a consequência será Y. Ela deve ser ensinada a fazer escolhas pela consequência. Isso aumenta o autocontrole e reduz a impulsividade. Vale aqui analisar a diferença entre castigo e combinados. No castigo, a criança faz algo errado e recebe uma palmada ou tem de se sentar numa cadeira para pensar sobre o que fez de errado. No primeiro caso, usa-se punição física que produz raiva do punidor. No segundo caso, sem punição física, a criança poderá ficar sentada pensando sobre a raiva que está sentindo do punidor e sobre formas de vingança. Isso pode ocorrer porque a criança não sabia previamente qual seria a consequência e não teve oportunidade de fazer escolhas. Ao fazer um combinado com a criança, antes que o comportamento ocorra é descrito o comportamento esperado e quais as consequênciaspara o comportamento A (comportamento-alvo que os pais desejam alterar) e para o comportamento B (comportamento alternativo que os pais querem que a criança aprenda). A criança pode escolher: se emitir o comportamento A, a consequência será fazer algo agradável; se emitir o comportamento B, não conquistará o direito à consequência agradável. Nesta condição, desaparece o punidor. A consequência agradável está nas mãos da criança e é ela quem escolhe se quer ou não conquistá-la. Em vez de gerar raiva do punidor, desenvolve-se a autocrítica, desaparecendo o punidor e o “outro” como culpado por não conquistar as conseqüências agradáveis. Especificar à criança e ao adolescente seus deveres e direitos, mostrando que é necessário cumprir com um conjunto de deveres para conquistar determinados direitos, contribui para o processo de formação de responsabilidade. Por exemplo, ao ensinar o respeito ao outro em situações de brigas entre irmãos: a cada comportamento de brigar com o outro, os pais não devem exercer o papel de juiz, pois nesse caso estariamjulgando quem está certo e quem está errado. Para a criança provocadora, esse julgamento coloca os pais do lado do irmão e contra ela mesma. Isso aumentará o ciúme e a provocação. Fazer desafios para que os irmãos descubram uma solução (os comportamentos alternativos) para impedir uma briga permitirá aumentar a frequência dos comportamentos incompatíveis com o brigar. Esses procedimentos reduzem o estresse familiar, melhoram os relacionamentos afetivos e favorecem os comportamentos de seguir regras com limites. Ao contrário da raiva produzida pelo punidor, temos agora uma criança que deseja agradar aos que lhe agradam. O respeito é consequência desse processo.

Jaíde A. G. Regra - Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela USP, Jaíde A. G. Regra atua como psicóloga da infância e adolescência em consultório particular.